quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

O MITO DA CAVERNA

O mito da caverna é uma metáfora da condição humana perante o mundo, no que diz respeito à importância do conhecimento filosófico e à educação como forma de superação da ignorância, isto é, a passagem gradativa do senso comum enquanto visão de mundo e explicação da realidade para o conhecimento filosófico, que é racional, sistemático e organizado, que busca as respostas não no acaso, mas na causalidade.

Essa obra é uma alegoria de intenção filósofo-pedagógica, escrita pelo filósofo grego Platão, aproximadamente no séc. IV a.C. . Encontra-se na obra intitulada  A República (Livro VII), e pretende exemplificar como o ser humano pode se libertar da condição de escuridão, que o aprisiona, por meio da luz da verdade

                Imagine uma caverna com uma pequena entrada, e ao penetrar nos deparamos com uma grande fogueira. Mais adiante temos um declive bem íngreme e um muro. Atrás desse muro vivem pessoas que nasceram e viveram a vida inteira nesse lugar. Elas estão acorrentadas, de forma que são impedidas de se virarem e por isso, nunca viram a luz, apenas sombras projetadas pela fogueira, num paredão enorme no fundo da caverna. Os pais e os avós dessas pessoas também viveram a vida toda nesse lugar, nas mesmas condições. Então, a vida dessas pessoas se resume exclusivamente daquilo que elas entendem como vida, ou seja, do que elas conseguem enxergar no paredão do fundo da caverna.

Em cima do muro, a base é estreita, mas o suficiente para que outras pessoas consigam caminhar, de um lado para o outro, portando os mais diversos objetos, animais e até mesmo elas mesmo, projetando no paredão ao fundo da caverna, sombras formadas pela luz da fogueira. Esses “atores” se divertem com aquela situação e manipulam os prisioneiros, levando a eles sombras de coisas capazes de induzir o pensamento daquela comunidade.

Eles conversam com as sombras. Para eles, as sombras são seres viventes e reais. Assemelham-se a nós. E, para começar, acham que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e de seus companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte. Tem nomes, tem vozes. Algumas são muito parecidas com elas mesmas, causando uma proximidade, uma empatia! Muitas sombras se repetem, e algumas são velhas conhecidas. Porém, sempre há novidades, sombras novas, que chamam a atenção dessas pessoas, e não as deixam entediadas, mantendo-as entretidas para que não desviem as atenções para outras coisas, que não seja o paredão do fundo da caverna.

Apesar de estarem acorrentadas, elas não se sentem presas, pois a corrente é como se fosse parte do seu corpo.  Para elas, não havia razão alguma sair daquela situação, pois já estavam acostumadas e além do mais, seria arriscado demais fazer algo que jamais nenhum outro fizera: sair em busca de outros mundos!

Um dia, um dos integrantes dessa comunidade pensou: Por que essas correntes? Por que estamos aqui? O que há atrás do muro? Então, resolveu se desvencilhar das correntes e, com muita coragem, seguiu para trás do muro.

Ao contornar o muro, se deparou com uma escuridão enorme. Não enxergava quase nada, mas seguiu adiante mesmo assim, titubiando entre as rochas e subindo cada vez mais, até que conseguiu finalmente enxergar uma luz. Era uma luz muito forte! Um brilho que nunca tivera visto. Era o fogo da fogueira! Foi difícil se acostumar com aquilo, mas aos poucos sua visão foi se acostumando passou a enxergar também os atores brincando em cima do muro, fazendo projeções de sombras no paredão no fundo da caverna! As mesmas que ele vira lá em baixo!!!

Passou então a entender um pouco sobre aquele mundo que tanto questionava.

Continuou com sua caminhada em direção à saída da caverna. Lá também tinha luz! Uma luz muito mais intensa do que a luz da fogueira!!  Quando ele conseguiu sair, ficou completamente cego e estava exausto! A subida foi árdua demais!

Terá necessidade de se habituar a ver os objetos da região superior. Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, durante o dia, o Sol e sua luz.

 

Por fim, será o sol, e não as suas imagens refletidas nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal qual é. Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna.

Porém, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram?

Entretanto, tomado de compaixão pelos companheiros de aprisionamento, ele decide enfrentar o caminho de volta à caverna com o objetivo de libertar os outros e mostrar-lhes a verdade.

Imagine o que ocorreria com esse homem, em seu regresso.

Provavelmente os outros, acostumados à escuridão, não acreditariam no seu testemunho e que aquele que se libertou teria dificuldades em comunicar tudo o que tinha visto. Por fim, era possível que o matassem sob a alegação de perda da consciência ou loucura.

Na Alegoria da Caverna, Platão faz uma crítica sobre a importância da busca pelo conhecimento e o abandono da posição cômoda gerada pelas aparências e pelos costumes.

Nessa metáfora, as correntes representam o senso comum e a opinião (os pré-conceitos) que aprisionam os indivíduos e os impede de buscar o conhecimento verdadeiro . Representam também a preguiça, a inércia e o medo.

As sombras simbolizam as aparências, tudo aquilo que é falso ou que são meras imitações daquilo que é, de fato, real. É o mundo das aparências no qual as pessoas estão acostumadas a viver. É o mundo ilusório, é a “MATRIX”

Assim, tal como o prisioneiro, as pessoas devem confrontar os hábitos do cotidiano e libertar-se das correntes em vista da verdade. A saída da caverna representa a difícil missão daquele ou daquela que rompe com os preconceitos e busca esse conhecimento.

A luz representa o conhecimento, que pode ofuscar quem não está habituado, o Sol é a verdade, que ilumina tudo aquilo que existe, que dá origem ao conhecimento.

Platão também faz referência ao papel da filosofia. O filósofo é aquele consegue sair da caverna, mas por odiar a ignorância, sente compaixão e se vê obrigado a tentar libertar os outros, que porventura também queiram sair.

O Mito da Caverna é também uma homenagem de Platão a Sócrates, seu mestre. Para Platão, Sócrates foi aquele que contestou, rompeu com os preconceitos de sua época e foi condenado à morte por isso.

Sócrates foi acusado de corromper os jovens de Atenas, atentar contra os deuses e a democracia grega. Recebeu o julgamento e foi condenado à morte pela maioria de votos dos cidadãos. Sua morte gerou uma grande comoção na Grécia e influenciou os rumos da filosofia e de toda a cultura ocidental. Ele saiu definitivamente da caverna!