sábado, 6 de junho de 2020

O DISCÍPULO DE PERTO

          Efraim, filho de Atad, tão logo soube que Jesus se rodeava de pequeno colégio de aprendizes diretos para a enunciação das Boas-Novas, veio  e busca de informes precisos. Divulgava-se, com respeito ao Messias, toda sorte de comentários.
          O povo se mantinha oprimido. Respirava-se, em toda parte, o clima de dominação. E Jesus curava, consolava, bendizia... Chegara a transformar água em vinho numa festa de casamento...
          Nâo seria ele o príncipe esperado, com suficiente poder para rediir o Povo de Deus? Certamente, ao fim do ministério público, dividiria cargos e prebendas, vantagens e despojos de subido valor.
          Aconselhável, portanto, disputar-lhe a presença. Ser-lhe-ia discípulo chegado ao coração.
          De cabeça inflamada em sonhos de grandeza terrestre, procurou o Senhor que o recebeu com a bondade de sempre, embora tisnada de idefinível melancolia.
          O Cristo havia entrado vitorioso em Jerusalém, mas achava-se possuído de imanifesta angústia. Amargurosa tristeza transbordava-lhe do olhar, adivinhando a flagelação e a cruz que se avizinhavam.
          Sereno e afável, pediu a Efraím lhe abrisse o coração.
        - Senhor - disse o rapaz, ardendo de idealismo -, aceita-me por discípulo, quero seguir-te, igualmente, mas desejo um lugar mais próximo de teu peito compassivo!... Venho disputar-te o afeto, a companhia permanente!... Pretendo pertencer-te, de alma e coração...
           Jesus sorriu e falou, calmo:
        - Tenho muitos seguidores de longe, no entanto, aspirarás, porventura, à posição do discípulo de perto?
         - Sim, Mestre! - exclamou o candidato, embriagado de esperança no poder humano - que fazer para conquistar semelhante glória?
           O Divino Amigo, que lhe sondava os recônditos escaninhos da consciência, esclareceu, pausadamente:
           - O aprendiz de longe pode crer e descrer, abordando a verdade e esquecendo-a, periódicamente, mas o discípulo de perto empenhará a própria vida, na execução da Divina Vontade, permanecendo, dia e noite, no monte da decisão.
              O seguidor de longe provavelmente entreter-se-á com uitos espetáculos a lhe roubarem a atenção, mas o companheiro de perto viverá em suprema vigilância.
               O de longe sente-se com liberdade para buscar honrarias e prazeres, misturando-os com as suas vagas esperanças no Reino de Deus, mas o de perto sofreá as angústias do serviço sacrificial e incessante.
               O de longe dispõe de recursos para encolerizar-se e ferir; o de perto armar-se-á, através dos anos, de inalterável paciência para compreender e ajudar.
               O de longe alegará dificuldades para concentrar-se na oração, experimentando sono e fadiga o de perto, contudo, inquieta-se pela solução dos trabalhos e caminha sem cansaço na constante vigília.
               O de longe respirará em estradas floridas, demorando-se na jornada quanto deseje; o de perto, porém, muita vez, seguirá comigo pelo atalho espinhoso.
               O de longe dar-se-á pressa em possuir; o de perto, no entanto, encontrará prazer de dar sem recompensa,
               O de longe somente encontra alegria na prosperidade material; o de perto descobre a divina lição do sofrimento.
               O de lnge padecerá muitos melindres; o de perto encher-se-á de fortaleza para perdoar sempre e recomeçar o esforço do bem, quantas vezes se fizerem necessárias.
               O de longe não cooperará sem honras; o de perto servirá com humildade, obscuro e feliz.
               O de longe adiará os seus testemunhos de fé e amor perante o Pai; o de perto, entretanto, estará pronto a aceitar o martírio, em obediência aos Celestes Desígnios, a qualquer momento.
               Após longa pausa,fixou em Efraím os olhos doces e indagou:
              - Aceitarás, mesmo assim?
               O candidato, algo confundido, refletiu, refletiu e exclamou:
              - Senhor, os teus ensinos me deslumbram!... Vou à casa de Deus agradecer ao Santo dos Santos e volto, dentro de uma hora, a fim de abraçar-te o sublime apostolado, sob juramento!...
              Jesus aceitou-lhe o amplexo efusivo e ruidoso, despediu-se dele, sorrindo, mas Efraim, filho de Atad, não mais voltou.

IRMÃO X
Mensagem recebida pelo médium Francisco Cândido Xavier
CORDIALMENTE

                 E se você perdoasse?
                 Declara-se aflito e exausto. Aproximou-se do Espiritismo, como quem busca a fonte de águas vivas. Deslumbrado, feliz. você saciou a sede de conhecimento e consolação Sentiu a grandeza da vida que se estende, sublime, além da morte, e passou a cooperar a fim de que outros recebessem a mesma dádiva.
                Entretanto, alega a impossibilidade de ajustar-se às demais peças da máquina de serviço. Assevera, contrafeito, haver encontrado na organização doutrinária a inconsciência, a ubsebsatez, a desconfiança e a maldade. Afirma que os irmãos não vibram no mesmo ritmo de fraternidade com que seu coração ai marcando as horas renovadoras.
                Suas boas intenções são deturpadas, seustamento. melhores sentimentos feridos...
                No entanto, que labrador do mundo encontrou o campo sem obstáculos e sem erva daninha, convidando-o ao suor da sementeira inicial?
                Se você de mãos postas no arado da própria redenção, avançasse, firme, no esforço silencioso, provavelmente não seria defrontado pelo desapontamento.
                Não espere que o amigo venha ao econtro de suas necessidades, nem estabeleça dívidas de gratidão que você mesmo teria dificuldade de aceitar.
                Não fomos chamados a servir entre anjos. Criaturas imperfeitas quais somos, porque exigir um paraíso com exclusividade para os nossos desejos? Permanecemos num imenso campo de trabalho, onde cada servo foi trazido pelos desígnios superiores a recanto diferente.
               O Espiritismo evangélico detém gloriosa tarefa destinada a concretizar-se através da colaboração dos homens de boa vontade. Se não nos sentirmos edicados para a melhoria dos outros, como realizar o cometimento?
               Além disso, não creia seja você o único a tolerar. Todos nós arquivamos traços condenáveis na personalidade que outros suportam a seu turno. Falhando-nos o senso de auxílio mútuo, como garantir a integridade da obra?
              Porque a demora na exasperação ou no desânimo, se há tanto serviço nobre por fazer? Porque disputar funções alheias se cada qual de nós está situado na posição em que será possível mais e melhor?
             As abelhas, em plena atividade da colmeia, quando visitadas por algum detrito, não perdem tempo, atribuindo-lhe demasiada importância. Envolem o elemento indesejável em cêra isolante e prosseguem na abençoada faina do mel.        
           Esqueçamos também o mal pertubador para que o bem não sofra perigoso intervalo.
           Depois do sepulcro, na maioria das vezes, é que descobrimos o valor dos atritos nra.os círculos de luta em que você ainda se encontra. O corpo constitui para a alma o que a ensxada representa para o lavrador - instrumento bendito para a aquisição de experiência. E acaso poderíamos justificar a deserção do agricultor, diante de pedras e espinheiros? Para que a enxada? Para que a oportunidade de elevação? 
         Não menoscabe o seu ensejo sublime de aprender, trabalhar e servir.
         Quanto à imperfeição dos companheiros, lembre-se de que o doente reclama remédio, tanto quanto o abismo anseia plenitude. As visões gloriosas e as gloriosas revelações não traduzem mais que responsabilidade. Paulo de Tarso contempla Jesus, radiante de beleza celestil, às portas de Damasco; todavia, voltando a si do êxtase divino, repara que a paisagem é a mesma e que os seus problemas individuais continuam inalteráveis, exigindo-lhe alta capacidade de renúncia e sacrifício para resolvê-los perante as leis eternas. O próprio Mestre, depois de maravilhosamente transfigurado no Tabor, desce  o monte iluminado para escalar a cruz em plena sombra.

IRMÃO X
Mensagem recebida pelo médium Francisco Candido Xavier - Março de 1948