Falar do meu pai é relativamente fácil, pois sobram qualidades que podemos destrinchar através de histórias diversas e fatos protagonizados por ele, que marcaram nossos corações. Sou capaz de encher essa página de elogios, citando características peculiares da sua personalidade e da capacidade que ele tinha de encantar todas as pessoas que tiveram oportunidade de trocar um dedinho de proza com ele, independente da classe social, cultura, religião ou qualquer outro grupo existente na terra. Humilde, mas de enorme cultura e senso de justiça, sabia ouvir as pessoas com paciência. Depois fazia uma análise geral da situação que lhe era exposta, tecendo comentários que levavam, em grande maioria das vezes, a conclusões elucidativas que facilitavam as pessoas decidirem a melhor solução para seus problemas. Homem íntegro e convicto da sua responsabilidade de pai, tinha preocupação de agir sempre de forma correta, usando o exemplo como aliado principal na educação dos filhos. Os problemas profissionais nunca passaram da porta de casa, assim como as obrigações religiosas, que nunca influenciaram, de forma nenhuma, os anseios, as idéias, até mesmo as crenças de quaisquer dos filhos. Apesar de espíria atuante, com publicações de livros e assessorias na Federação Espírita Brasileira, meu pai nunca sequer iniciou uma conversa de tópico religioso comigo (e acredito que assim fazia com meus irmãos), pois tinha enorme preocupação em não influenciar nas convicções e no livre arbítrio de cada um. Era eu quem tomava a iniciativa do pleito, procurando esclarecer muitas dúvidas. Aí sim, ele discorria seus ensinamentos com grande felicidade e satisfação. Suas palestras em assembléias ou em centros espíritas eram preenchidas de altíssima energia, com conteúdos significativos que tocavam as almas de todos os participantes, como se recebêssemos uma rápida descarga elétrica divina que nos enchíamos de satisfação. O respeito era notório. O silêncio compulsivo revelava a disseminação de quaisquer argumento contrário que pudesse aparecer, pois as mensagens eram todas desprovidas de dogmatismos religiosos. Não importava a crença religiosa. As mensagens de amor fraterno e a busca pela paz interior dominavam todos os espaços, atingindo assim cada participante na sua essência espiritual, acima das suas convicções terrenas.
Não posso falar quase nada sobre a vida profissional, mas tive a grata satisfação de ter trabalhado durante tres anos no Mongeral-Montepio Geral de Economia, onde meu pai presidiu durante uma intervenção federal. Lá pude perceber que todos (incrivelmente todos) os funcionários da empresa, desde o atual presidente até os faxineiros, ascensoristas e recepcionistas, tinham alguma história pra contar. Todas dando ênfase à educação, simpatia e simplicidade do então presidente Hernani.
Em casa, no entanto, o Hernani que todos conhecem se permitia desatar as amarras das formalidades profissionais e de responsabilidades religiosas, tornando-se então um ser humano “mortal”, com defeitos, com preguiça, com desejos, etc. Amante da música e da ciência em geral, sua distração preferida era fazer gravações em fitas cassetes e fitas de vídeo. Não tinha preferência de estilos de música. Era altamente eclético, com algumas restrições aos rock’s “modermos” da época , sambas (pagodes) e funk. Adorava MPB, clássicos americanos e franceses e orquestras em geral. Quanto aos filmes, gostava muito de documentários científicos (principalmente astronomia) e documentários sobre animais em geral. Torcia pelo Botafogo do Rio e tinha verdadeira paixão pelos livros. Lia de tudo, geral. Infelizmente não teve tempo hábil para dominar o computador e desfrutar das suas facilidades atuais, senão certamente ele multiplicaria, de forma significativa, suas publicações literárias e talvez formaria uma enorme discoteca de cd’s e dvd’s montados por ele. É claro que o texto acima são visões pessoais, extraídas do meu convívio e das experiências que tive junto a ele. Certamente os meus irmãos terão outras impressões. Porém, acredito que a essência da personalidade descrita não mudaria muito. Não entrei no mérito das dificuldades vividas por ele na sua jornada da vida pra não ser repetitivo. Muito já foi dito a esse respeito. Procurei dar meu testemunho do que presenciei e espero ter sido útil de alguma forma.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
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